domingo, 26 de maio de 2019

foto, 2010, josé 

dizem que o que caminha 
procura outros dias 
outros olhos onde adormecer- 

e o que acolhe estrelas 
torna-se ainda mais errante 
secreto abismo de mil feridas 
de mil golpes de punhais 
na mortalha irreal do tempo 

dizem que as casas e os barcos 
conhecem lado a lado 
todas as contradições do mundo 
todas as sombras degoladas 
de quem ama e rema na água 
até que o mundo o esqueça 

nada disto sei 
eu que vivi nestas casas 
eu que amei nestas árvores 
o despido tronco dos outonos 
eu que encontrei nestes barcos 
os sonhos perdidos dos argonautas 
e o suor dos seus corpos cansados 
eu que disse “amo-te” 
como uma sentença de morte 
lida em voz monótona 
como quem lê um poema 
e ensurdece ao lê-lo 

vieram agora os dias quentes 
e eu espero nestes barcos parados 
que alguém me diga o que eu disse 
2010, josé 

Myndir á þili - Allt með sykri og rjóma 
https://youtu.be/R1rqEQbMDbU

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