domingo, 26 de maio de 2019

foto, 2018, josé

dedicado às pessoas muito sensíveis 
poetas, artistas e outras faunas de circos sociais que têm êxtases angélicos e conúbios com diabos chipados


tenho guindastes nas mãos 
com que iço rochas 
e faço pontaria a aviões de papel 
lançados como mísseis 
na rotunda da estrada 

aonde fica a vossa casa 
senhores de pianos cansados? 

se quereis voar 
escolhei as asas 
no lixo do que pensais 

aqui estarei 
até às três horas da manhã 
e direi que sou porteiro 
das vossas sombras interiores 

quereis ou não quereis 
que abra o livro das horas 
em que rezais 
das vossas lindas iluminuras? 

a arte é escoicear no vento 
é ter no galope 
um irmão sombrio 
é trazer o inferno do inferno 
em vez da esmaecida Eurídice 
é dizer um dois três 
e cortar a garganta 
por cada palavra dita 

sim é assim que eu arrombo o mundo 
com estrondo e pompa 
para que nenhum espelho registe 
o que no vosso rosto 
é profunda máscara do vazio 

deixai-me a minha pequena birra 
o meu balbuciar de criança 
deixo que as palavras me devorem 
e tenham o sanguinário sentido 
do que sinto por dentro e por fora 

gosto das fontes 
onde querubins de boca seca 
ou putti de boca desértica 
dançam a mazurca da morte 

não sois vós benditos 
ou angélicos seres? 

há um uivo que só eu conheço 
um uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiivvvvvvvvvvvvvvvvvvoooooooooooo 
que só o deserto conhece 
e é nele que o meu corpo se embriaga 

vem de dentro dos pulsos 
o nevoeiro do que procuro 
e se a vida desagua em algum lado 
esperarei nas migalhas do que digo 
o júbilo pleno de um pão de trigo 

não preciso dos vossos alaúdes 
da vossa voz insossa 
durmo em cabarets 
e conheço o sapateado da loucura 

ah, a indústria funesta do sono 
a bela fuligem dos sonhos 
a fábrica dantesca dos vossos olhos 
tudo isso engulo e esqueço 

não me dêem nada 
o tempo conhece nos meus ossos 
o ofício eterno de ser tempo 
com ele me entendo 
com ele me visto e dispo 
com ele me perco e encontro 
com ele direi finalmente 
que sou de lado nenhum 
e que escrevo como quem range os dentes 
como quem dá um soco 
no seu próprio estômago 

subscrevo-me com muita consideração 
desculpai a amnésia 
não me lembro do meu nome 
se é que tive algum 

tereis a bondade de procurá-lo 
vós que sois bondosamente 
sensíveis criaturas? 

2018, José 

música 
Maurice Ohana - In Dark and Blue 
https://youtu.be/AeXsnaSw_8U

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