sexta-feira, 31 de maio de 2019

foto, 2017, lyon
escutei no teu nome
um nome que já não tenho
um nome que atravessa todos os mares
como um navio à deriva
e espera no leme do vento
um rumo por fim encontrar

escutei no teu nome
os rumores dos rios
as sombras breves das manhãs
e a sonolência das palavras
na tua boca iluminada

talvez escute agora
na minha voz
toda a escuridão 
do que então disse
talvez acorde agora
e crie o mundo como um deus cansado
e saiba que nos pulmões
é a vida que ressuscita
de assombro e dor

escutei no teu nome
a luz anónima do que sou
a luz do nome que não tenho
a luz do nome que me deste
no baptismo dos teus braços
2017, Lyon

música
Dakota Suite & Emanuele Errante — A Worn Out Life With Cello

quinta-feira, 30 de maio de 2019


foto josé munique
In memoriam
Para P, M, P e AA
Tinha a biografia curta dos internados
e o que nela constava era inocente como sombra.
O massacre era dormir em cama trocada
e tomar remédios insólitos para a salvação final,
de olhar desabrigado pedinte de outras soluções,
sabendo que se está sepultado em lençóis urinados
como quem já não tem corpo e vida próprias.
Tinha o futuro pronto mas logo o esqueceu:
o que lhe disseram era mais perfeito
e soava a chantagem.
Pensou:“sejamos mais uma vez a dádiva
pois estaremos esmagados nas paredes
em cada dia sem idade.”
Vinham visitá-lo pela tarde lembrar-lhe a solidão
e o contágio precário do medo.
Eles iam ele ficava era esta a sua última vitória.
Tudo o mais era perfeitamente previsível
na bastarda confusão do sangue
que pára e fica sem lugar.
josé

música
Blixa Bargeld - Grand Hotel Tbilisi 


foto, 2019, josé

por vezes ainda procuro
o deslumbramento das tardes
a luz infinita da música
que conhece as raízes das árvores-
assim sou
sussurro de uma voz perdida
que em mim se depositou
aluvião estranho
de vidas que desconheço

onde estou
nos caminhos que atravesso?
sou o meu próprio reverso
dor e prazer solidão e multidão
corpo feito e desfeito
em cada mão que arde
em cada árvore que nasce
2017/19, josé

música
Thorvaldsdottir: Into - Second Self
https://youtu.be/qmciDtpWnxY
foto, 2017, josé

hoje
      serei
              o que murmura
e espera palavras patriarcais
na lentidão grave dos joelhos

a salvação é ofício
         dos que se afundam
até à memória da terra
convertidos que estão
ao voo fértil das andorinhas
e ao esplendor estranho do visível

e como voz perdida
entoarei o canto íntimo do vento
2019, josé

música
Résurrection · Les bas d'anselm
https://youtu.be/jI5IPT9nWDw
foto, 2018, josé, Munique
seguirei nos meus passos interiores
a abundância da solidão
saberei então 
que as chamas do tempo
devoram lentamente a eternidade

seguirei as minhas sombras interiores
e como poste tombado
saberei então
que os olhos fechados
devoram lentamente o que viram

seguirei nos meus ventos interiores
a abundãncia das tempestades
até que as palavras digam
de que são feitos os fantasmas
2019, josé

música
MEDEA *made in the black sea*
black sea, turkey to ukraine, july 2011
a soundwalk collective project
images by vincent moon
edit by margarita jimeno & vincent moon
sounds by stephan crasneanscki, simone merli, kamran sadeghi, jake harper
produced by soundwalk

terça-feira, 28 de maio de 2019


foto, josé, 2018 

aplaudirei fantasmas 
como animal jacente 


à beira da água 

e direi que esqueci os nomes
os que tive nas breves madrugadas
de ser cinzas e névoas

tuberculose interior
de quem espera um navio no sono
2018, josé

música
Kierkegaards: No. 2. Kierkegaard his walk around Copenhagen


photo 
la révélation, 2016 
josé

Pour partir 
il faut avoir deux corps: 
un qui reste 
qui demeure dans les ombres 
et un autre qui s'en va 
apocalypse soudain de lumière- 
2017, josé 

musique 
rupa & the april fishes - maintenant 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

foto, 2017, josé
the delta of living into everything
john ashbery
amo as paisagens
que desaparecem
no sudário do invisível
2017, josé

música
Alfred Schnittke - The Story Of An Unknow Actor: IV. Waltz of Farewell

domingo, 26 de maio de 2019

foto, 2018, josé

dedicado às pessoas muito sensíveis 
poetas, artistas e outras faunas de circos sociais que têm êxtases angélicos e conúbios com diabos chipados


tenho guindastes nas mãos 
com que iço rochas 
e faço pontaria a aviões de papel 
lançados como mísseis 
na rotunda da estrada 

aonde fica a vossa casa 
senhores de pianos cansados? 

se quereis voar 
escolhei as asas 
no lixo do que pensais 

aqui estarei 
até às três horas da manhã 
e direi que sou porteiro 
das vossas sombras interiores 

quereis ou não quereis 
que abra o livro das horas 
em que rezais 
das vossas lindas iluminuras? 

a arte é escoicear no vento 
é ter no galope 
um irmão sombrio 
é trazer o inferno do inferno 
em vez da esmaecida Eurídice 
é dizer um dois três 
e cortar a garganta 
por cada palavra dita 

sim é assim que eu arrombo o mundo 
com estrondo e pompa 
para que nenhum espelho registe 
o que no vosso rosto 
é profunda máscara do vazio 

deixai-me a minha pequena birra 
o meu balbuciar de criança 
deixo que as palavras me devorem 
e tenham o sanguinário sentido 
do que sinto por dentro e por fora 

gosto das fontes 
onde querubins de boca seca 
ou putti de boca desértica 
dançam a mazurca da morte 

não sois vós benditos 
ou angélicos seres? 

há um uivo que só eu conheço 
um uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiivvvvvvvvvvvvvvvvvvoooooooooooo 
que só o deserto conhece 
e é nele que o meu corpo se embriaga 

vem de dentro dos pulsos 
o nevoeiro do que procuro 
e se a vida desagua em algum lado 
esperarei nas migalhas do que digo 
o júbilo pleno de um pão de trigo 

não preciso dos vossos alaúdes 
da vossa voz insossa 
durmo em cabarets 
e conheço o sapateado da loucura 

ah, a indústria funesta do sono 
a bela fuligem dos sonhos 
a fábrica dantesca dos vossos olhos 
tudo isso engulo e esqueço 

não me dêem nada 
o tempo conhece nos meus ossos 
o ofício eterno de ser tempo 
com ele me entendo 
com ele me visto e dispo 
com ele me perco e encontro 
com ele direi finalmente 
que sou de lado nenhum 
e que escrevo como quem range os dentes 
como quem dá um soco 
no seu próprio estômago 

subscrevo-me com muita consideração 
desculpai a amnésia 
não me lembro do meu nome 
se é que tive algum 

tereis a bondade de procurá-lo 
vós que sois bondosamente 
sensíveis criaturas? 

2018, José 

música 
Maurice Ohana - In Dark and Blue 
https://youtu.be/AeXsnaSw_8U
foto, 2010, josé 

dizem que o que caminha 
procura outros dias 
outros olhos onde adormecer- 

e o que acolhe estrelas 
torna-se ainda mais errante 
secreto abismo de mil feridas 
de mil golpes de punhais 
na mortalha irreal do tempo 

dizem que as casas e os barcos 
conhecem lado a lado 
todas as contradições do mundo 
todas as sombras degoladas 
de quem ama e rema na água 
até que o mundo o esqueça 

nada disto sei 
eu que vivi nestas casas 
eu que amei nestas árvores 
o despido tronco dos outonos 
eu que encontrei nestes barcos 
os sonhos perdidos dos argonautas 
e o suor dos seus corpos cansados 
eu que disse “amo-te” 
como uma sentença de morte 
lida em voz monótona 
como quem lê um poema 
e ensurdece ao lê-lo 

vieram agora os dias quentes 
e eu espero nestes barcos parados 
que alguém me diga o que eu disse 
2010, josé 

Myndir á þili - Allt með sykri og rjóma 
https://youtu.be/R1rqEQbMDbU
foto 
2017, josé 

era dezembro 
e as manhãs 
floresciam como rosas geladas 
na vida apunhalada 

dizias sem assombro: 
“tenho na memória cavalos 
que atravessam a galope o corpo” 

numa cidade perdida 
de que já não lembro o nome 
a minha mão ainda procura o canto 
e obediente regresso à luz 
a que habita nos lençóis lavados 
e decifra sinais de felicidade 
nos reflexos mais breves da vida 

espasmos de luz 
espasmos de cor 
espasmos de sonhos 
numa só fotografia 
2018, josé 

música 
Laurence Crane - ‘John White in Berlin’ 
played by Apartment House (Anton Lukoszevieze - cello, Simon Limbrick - percussion, Philip Thomas - piano, Alan Thomas - guitar) 




foto josé, 2015

mirrors also dream 
the fleeting afternoon light- 

they are watchful spectators 
of forgotten days and laughs 
and like rusty keys 
they open doors of past- 

the mirrors also know 
the slowly smolder of time 
and the cold loneliness of coal
beneath earth beneath life. 
2015, josé

música 
BIRDS OF PASSAGE - the monster inside you (2011) 
https://youtu.be/unuNwGQ4Tmc 

foto, 2015, j the light of life without make-up! j il faut sauver...la blessure noir du temps! j voices coming from...